Angop - Agência de Notícias Angola PressAngop - Agência de Notícias Angola Press

Ir para página inicial
Luanda

Max:

Min:

Página Inicial » Notícias » Ambiente

03 Agosto de 2018 | 16h11 - Actualizado em 03 Agosto de 2018 | 16h10

Nascentes do planalto Central agredidas pelo homem

Huambo - As nascentes dos Bombeiros, Calomanda, Lufefena, Sacahala, Calondeia, Apuli, Calute, da Ravina (Munda) e Colongoe, situadas no Planalto Central, podem perder volume e qualidade da água, devido à agressividade do homem às áreas contíguas, com consequências que provocarão a seca.

Envia por email

Para compartilhar esta notícia por email, preencha os dados abaixo e clique em Enviar

Corrigir

Para reportar erros nos textos das matérias publicadas, preencha os dados abaixo e clique em Enviar

1 / 1

Água da Nascente dos Bombeiros poluída por actividade humana

Foto: Rosario dos Santos

Lavagem de viaturas nas nascentes dos rios

Foto: Rosário dos Santos

(Por Sandra Africano)

Nas zonas perto das nascentes, homens praticam agricultura, exploram inertes, realizam queimadas e lavam carros, o que degrada o meio, provocando desequilíbrio no processo natural da sua existência - alerta o Centro de Ecologia Tropical e Alteração Climática (CETAC).

Este alerta resulta de um estudo do CETAC, que mapeou e caracterizou, até 2017, as cinco principais bacias hidrográficas do país, que dispõem de 19 nascentes no Planalto Central, província do Huambo.

Os pesquisadores constataram que a mata ciliar (formação vegetal às margens dos córregos (canal), lagos, represas e nascentes) demonstra gradual índice de destruição, correndo riscos de, em 10-20 anos, enfrentar situações extremas, tais como a “morte” das nascentes.

Sobre o assunto, o director do CETAC, Joaquim Manuel, disse ser necessária uma estrutura nacional para a aplicação de políticas de preservação, protecção e de requalificação das nascentes, sobretudo dentro das cidades.

Para o responsável, devem-se isolar essas superfícies, com a eliminação das instalações rurais desqualificadas e requalificá-las, assim como excluir qualquer infra-estrutura física nas cercanias, desde habitações e estradas.

Com estas medidas, será possível a reposição da flora e da fauna, para a salvaguarda das condições para o desempenho normal das nascentes - recomenda o estudo feito pelo CETAC.

Segundo Joaquim Manuel, as medidas são importantes, tendo em conta que esses locais têm relação com o desenvolvimento económico e social do país, pois detêm uma das maiores bacias hidrográficas do continente, como é o caso da do Cuvango, com conexões aos grandes lagos.

Embora a fonte não quantificasse a percentagem destes rios em relação às pesquisas anteriores (antes guerra), os estudos do CETAC apontam para a possibilidade de terem perdido alguma qualidade aquática, além do seu volume.

As nascentes que dão origem aos rios da bacia do Cunene e Queve (degradadas pela acção do homem, com excertos de florestas desalinhadas, águas turvas a “olho nu”, sem aves e uma exploração agressiva de inertes) são exemplos desta perda.

O director alertou para o facto de, por haver menos florestas, pouca água conseguir chegar ao subsolo, o que compromete a recarga aquífera.

Nascentes agredidas pelo homem no Huambo

A dos Bombeiros, sem estar registada pelo Instituto de Geodesia e Cartografia de Angola (IGCA), é conhecida por "fonte" pela população local, mas os investigadores do CETAC designaram-na por “Nascente dos Bombeiros”, por se situar, exactamente, no perímetro do Quartel de Bombeiros do Huambo.

Este fio de água nasce no meio urbano ligado à zona industrial da cidade do Huambo. Na sua área de recarga, há uma estação de serviço que, eventualmente, despeja toda a água residual no rio.

Por estar rodeada de edifícios habitacionais e de prestação de serviço, produção agrícola e lavagem de roupa, o local é instável, com riscos de assoreamento, sem locais para abrigo animal e fontes de alimentação, logo não fomenta a biodiversidade, notando-se a ausência até de aves.

A de Calomanda, com ponto de recarga numa das zonas nobres da cidade do Huambo, é das nascentes com elevado risco de seca e está encravada numa zona residencial. O seu curso é entre bairros populosos, com envolvência de estradas e canais revestidos.

Pela acção humana, a vegetação ribeirinha e aves desapareceram, afectando a simbiose e os processos normais para a continuidade da nascente.

Sacahala, das mais conhecidas na cidade do Huambo, por envolver a Estação Experimental Florestal, é uma nascente cujo estado é pobre, devido à sua localização em pleno meio urbano, tanto na zona de recarga como no seu leito.

Nas suas cercanias, foram construídas casas, há lavagem de roupa, exploração de terra de aluvião. No local, é depositado lixo, o que degrada a vegetação.

Calondeia, perto do início da estrada asfaltada que liga o centro urbano ao Pólo Industrial da Chiva, sofre de elevada perturbação e contaminação da paisagem e da zona de recarga. O seu estado exige um plano urgente de recuperação e estabilização, para que os seus rios recuperem a “vida” natural.

Calute é um manancial também situado num meio urbano complexo, detrás de uma estação de serviço.

Munda encontra-se numa zona com vários bairros, densamente povoados.

Colongoe é das mais importantes afluentes da margem esquerda da bacia do Queve, o que lhe posiciona num local privilegiado, no município-sede de Ekunha, em pleno sopé da vertente oeste da Cadeia Marginal de Montanhas, na província do Huambo. Porém, o excesso de ravina degrada as suas margens, a vegetação ribeirinha e a qualidade do seu substrato.

Ignorância de quem usa nascentes

Apesar das alterações nas nascentes no Huambo, notam-se, diariamente, actividades que, a longo-prazo, podem reduzir a qualidade ou secar as nascentes, isto é, agricultura no seu perímetro, que altera os constituintes dos campos, exploração de inertes e queimadas que esterilizam os solos. Também se assiste à lavagem de carros e roupa, o que corrompe a qualidade da água.

Toda esta actividade é feita sem que os autores tenham consciência dos prejuízos que provocam ao meio, sobretudo ao processo de existência das nascentes dos rios.

Por exemplo, boa parte da população camponesa recorre, durante o período seco, ao cultivo de parcelas às margens de pequenos rios (Nakas ou Olonakas, como são chamadas na língua local), irrigando terras por meio do manejo do lençol freático.

Estas parcelas, que variam de 0,1 a 0,5 hectares, são responsáveis pela presença de uma boa parte das hortícolas durante esse período e de pequenas colheitas de milho no início da época das chuvas. 

Ila Xiumbu, Antónia Juliana Ecuvale e Mariana Lucava, frequentadoras desses locais como lavadeiras profissionais desde 2004, disseram que fazem biscates no valor de 1500 a 2000 Kwanzas por muda/dia, sem conhecer as consequências dessa prática para a nascente.

Afirmaram que, em nenhum momento, lhes foram explicados os cuidados a ter com a nascente e os solos adjacentes.

“Gostaríamos de que as autoridades criassem lavandarias comunitárias para nós trabalharmos, porque, se sairmos daqui, como é que vamos viver”? – interrogaram.  

Mara José, mãe e solteira, disse: “Não conheço a importância do rio, nunca nos explicaram que tirar água aqui constitui infracção. Apenas sei que lavamos roupa e acarretamos água, para trabalhos domésticas”.

Defronte às casas das lavadeiras, observam-se mais de 15 montes de areia extraída ao redor das nascentes comercializadas por quatro mil Kwanzas a carroçaria de uma Toyota Dina (medida de referência).

 Regulamento e fiscalização

Apesar do avanço do problema, as pessoas continuam a agredir estes locais, sem coacção.

Constatou-se, no Huambo, que há casos em que a população não se apercebe de que está diante de uma nascente que precisa de uma forma cuidada de  tratamento.

Diante deste cenário, Joaquim Manuel sugeriu a produção de uma legislação de protecção das nascentes.

Para o director, embora exista uma lei contra  crimes que envolvem água e solo, a questão das nascentes deve ser tratada de forma específica, partindo da sensibilização até à criminalização.

Defendeu, na sequência, a existência de um efectivo vocacionado à inspecção das nascentes, sensibilização da população e, depois, caso necessário, criminalizar possíveis infractores.

Assuntos Ambiente   Poluição  

Leia também
  • 03/08/2018 16:09:11

    Angola sem rinoceronte preto, pinguim do cabo e hiena castanha

    Luanda - O pinguim do cabo, o rinoceronte preto e a Hiena Castanha são as espécies animais extintas da fauna angolana - indica a Lista Vermelha das Espécies de Angola tornada pública hoje em Luanda pelo Ministério do Ambiente.

  • 02/08/2018 13:43:48

    Lançado diagnóstico sobre educação ambiental em Malanje

    Malanje - Os bairros Carreira de Tiro, Canâmbua e Ritondo, na cidade de Malanje, beneficiam a partir de hoje (quinta-feira) do 1º diagnóstico comportamental da população sobre a educação ambiental, com incidência na produção de lixo.

  • 31/07/2018 17:49:16

    Ministra do Ambiente enaltece trabalho dos fiscais

    Luanda - A ministra do Ambiente, Paula Francisco, enalteceu hoje, terça-feira, em Luanda, o trabalho e dedicação dos fiscais no combate à exploração ilegal da fauna e flora selvagem em Angola.