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15 Dezembro de 2019 | 19h01 - Actualizado em 16 Dezembro de 2019 | 10h32

Preço do pão varia em 29 por cento

Luanda - Indispensável e quase obrigatório na mesa dos angolanos, o pão é um dos produtos da cesta básica que mais variação de preços registou em Angola, em 2019.

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Namibe: Preço do pão sobe de 25 para 30 kwanzas (Arq)

Foto: Evaristo Joaquim

(Por Francisca Augusto e Ana Monteiro)

O preço do produto variou em 29 por cento, saindo de 25 kwanzas em Setembro, para 35 (unidade de 60 gramas) em meados de Dezembro, por alegada escassez de farinha de trigo.

Diante de uma conjuntura macro-económica adversa para o país, o pão atingiu uma das maiores subidas já registadas dos últimos três anos (2016/2019).

Até finais de 2017, por exemplo, uma unidade de pão de 60 gramas podia sair, nas padarias credenciadas, por apenas 10 ou 15 kwanzas. Em 2018, já rondava os 20/25.

As constantes alterações no preço do produto, a nível do mercado nacional, preocupa os compradores e revendedores, numa altura em que as autoridades do Comércio prometem tudo fazer para combater a especulação de preços, sobretudo na época de festas.

Afinal de contas, trata-se de um dos mais antigos e consumidos alimentos em todo Mundo, descoberto há 12 mil anos, na então Mesopotânea, o actual Iraque.

Entretanto, reza a história que foi no Egipto, 7 mil anos antes de Cristo, que surgiu o fermento e o primeiro pão assado no barro, que rapidamente ganhou o Mundo.

Desde então, com farinha, água, sal e fermento, o pão, feito de vários formatos e qualidades, passou a ser considerado acessível, fácil de produzir e ao alcance de todos.

Porém, já não é bem assim em Angola, nos últimos meses. A variação do preço do pão já começa a afectar o orçamento e a mudar os hábitos de consumo de muitas famílias.

"Sou aposentado e o pão é um item obrigatório à mesa. Com o elevado preço, só resta-me torrar milho", desabafa o aposentado Manuel Ventura, 70 anos de idade, que pede às autoridades do país para intensificarem a fiscalização e travarem a especulação.

Em Fevereiro de 2016, o pão foi incluído na lista de 30 produtos (entre os quais o arroz e o leite) com o regime de preços vigiados, ou seja, "protegidos da especulação".

Entretanto, a realidade na prática é bem diferente. Hoje, uma unidade de pão que custava entre 20 e 25 kwanzas pode ser conseguido pelo consumidor a 50 ou até 70 kwanzas, apesar do crescente número de panificadoras no país.

Dados oficiais dão conta de que Angola conta, actualmente, com 800 unidades de panificação credenciadas pelo Estado, sendo 400 em Luanda, que reajustam os preços do produto a todo instante, por alegado aumento do preço da farinha de trigo.

Em média, indicam dados obtidos pela ANGOP, o país produz 480 mil toneladas de farinha de trigo/ano, insuficientes para suportar a "pressão do mercado" interno e fazer chegar o pão à mesa dos quase 30 milhões de habitantes.

Angola conta com pelo menos duas moageiras instaladas na província de Luanda, sendo pretensão do Governo que o sector do Comércio venha a contar, nos próximos dias, com um complexo industrial de produção de farinha em Benguela, para aumentar a produção.

Segundo as autoridades, o país consume perto de 650 mil toneladas de farinha/ano, 170 mil a mais do que a sua capacidade de produção interna (480 mil toneladas/ano).

Actualmente, um saco de farinha de trigo está a ser comercializado nas unidades comerciais a 15 mil kwanzas (grandes moageiras), contra os 22 do mercado informal. No começo do ano, o produto saía bem mais barato, à volta de seis mil kwanzas.

Mudanças à mesa no pequeno almoço

Essa variação do preço da matéria-prima impactou no custo final do pão, que no princípio de 2019 chegava a rondar os 20 Akz (um pão carcaça). Ou seja, o pão que há um ano custava 10 Akz está agora a 30/35 e o que custava Akz 50 custa actualmente 75 Kwanzas.

O pão carcaça de 60 gramas passou de 30 para 50 kwanzas.

Com essa nova realidade, algumas famílias estão a "desfazer-se" do matabicho tradicional (pequeno alomoço) e a optar por produtos nacionais, para poupar recursos.

É o caso da cidadã Josefa Manuel, de 55 anos, moradora do Zango 3, trabalhadora doméstica que aufere 50 mil kwanzas, insuficiente para "resistir" aos altos preços.

Sem alternativas, a viúva, mãe de 7 filhos, trocou a ementa do matabicho das crianças, saindo do habitual pão com chá para um prato reforçado: arroz com peixe.

Por dia, dona Josefa gastava 200 kwanzas no pequeno-almoço. Desde a subida do preço, a refeição matinal passou a custar-lhe 700 kwanzas. A mesma "não resistiu".

"Apesar do elevado preço do arroz no mercado, ainda é mais económico para mim os meus filhos agora matabicharem às 11h30 arroz com peixe frito ou cozido", diz.

Na mesma condição está Laura Domingos, vendedora no mercado da Sanzala, município de Viana. Com a subida repentina do preço do pão, deixou de comprar o produto, trocando-o por batata doce e mandioca fervida com chá, no matabicho.

"É mais económico utilizar os tubérculos (são mais saudáveis), do que comprar todos    os dias 10 pães a 400 kwanzas", recomenda.

A revendedora de pão Marta Venâncio, 45 anos de idade, também tem dificuldades.

"Comprávamos o pão a 10 Akz e agora estamos a comprar a 30 Akz e a revender a 50 Akz. Está mesmo caro,  não há lucro, porque muitos deixaram de consumir", lamenta.

Panificadoras defendem-se

Apesar de se manifestarem contra a subida do preço do pão, os proprietários de padarias apontam como razão o aumento do preço da farinha de trigo que, mesmo isento do IVA, registou uma vertiginosa subida em todo o país.

Mário Sebastião, proprietário de uma padaria, avança que o saco de farinha de trigo de 50 quilogramas no principal importador e agente fornecedor do mercado local está actualmente a 11.900 kwanzas, contra os 6 mil anteriores.

O comerciante conta que o fermento passou para 17 mil kwanzas e a margarina de 15 quilogramas passou para 7.800 Akz. Já nas grandes moagens, o saco de 50 kg está a Akz 15 mil, ao passo que nos mercados paralelos ronda os Akz 22 mil.

O comerciante reconhece que, como produto da cesta básica, o preço da farinha de trigo não poderia sofrer alterações, mas diz que se tornou mercadoria de “ouro”.

As panificadoras lutam para reduzir até pelo menos 25 por cento o preço da farinha de trigo, do açúcar e do fermento, essenciais para a produção de pães e bolos.

Segundo o presidente da Cooperativa da Associação das Indústrias de Panificação e Pastelarias de Angola (CAIPPA), Luís Troso, para contrapor a subida da farinha de trigo no fornecedor prevê-se a instalação, em 2020, de uma moagem no Planalto Central.

Informações obtidas pela ANGOP dão conta de que 80 por cento dos “players” do sector de panificação e pastelaria, em Angola, são estrangeiros.

Para contrapor essa realidade, a CAIPPA vai apostar igualmente no surgimento de novos produtores de trigo e moagem. Os equipamentos para novas moageiras já se encontram no país, faltando apenas investimento em infra-estruturas.

A organização justifica que a medida visa "angolanizar" o sector, quer do ponto de vista de transformação, quer da produção de matéria-prima, daí considerar importante que os industriais se associem à cooperativa.

Ministério da Indústria nega falta de trigo

A propósito da subida do preço do pão, director do Gabinete de Estudo Planeamento e Estatística do Ministério da Indústria, José Gama Sala, nega que tenha sido por falta de farinha de trigo, afirmando que houve uma "inversão de paradigma".

O responsável adverte que as panificadoras devem adaptar-se à situação.

Até agora, explica, as panificadoras tinham acesso à farinha por via dos armazéns grossistas, que faziam importação mediante a capacidade da produção interna.

"Os armazéns grossistas devem adquirir às indústrias que produzem e por esta via as panificadoras, enquanto os retalhistas compram aos grossistas", esclarece.

O responsável sustenta que as indústrias produzem em função do volume de encomenda numa capacidade diária, tendo em conta a sua capacidade industrial, razão por que não estão em condições de atender grandes volumes num único dia.

"As moageiras fazem uma programação e em função desta vendem aos grossistas que o fazem às panificadoras. Houve uma ruptura na procura muito grande de farinha de trigo. De alguma forma, houve pouca capacidade de oferta, mas de forma geral a produção interna e onde não há produção local nós autorizamos a importação", explica.  

O Ministério da Indústria, no âmbito do Decreto 23/19, tem feito o acompanhamento da importação e as devidas autorizações.

"Fizemos o acompanhamento deste produto e a fraca oferta não está relacionada com a autorização para importação do produto em questão", diz.

Segundo a fonte, o Ministério fez o pré-licenciamento, durante o I trimestre do ano, de 56 mil toneladas de farinha. Entretanto, só entraram 39 mil toneladas no II trimestre.

De igual modo, foram autorizadas 85 mil toneladas e entraram 44 mil no III trimestre.

"O problema da escassez de farinha que se verificou não foi por falta de importação. Depois do pré-licenciamento, neste encadeamento está também a indisponibilidade de divisas por parte dos importadores", explica José Gama Sala.

Acrescenta que o Ministério da Indústria acautelou a falha na produção, mas a importação não se efectivou nos níveis desejados, por falta de divisas.

INADEC reprova redução do volume do pão

Por sua vez, o chefe do departamento de formação e divulgação de práticas comerciais e serviços do Instituto Nacional de Defesa do Consumidor (INADEC), Joana Tomás, afirma que a implementação do IVA afectou o mercado do pão.

"Podemos verificar que, embora a farinha de trigo não conste dos produtos que tenham a inclusão do IVA, os outros produtos que contribuem para confecção do pão têm o IVA imputado e isso fez com que as padarias subissem o preço", refere.

Ainda assim, condena o facto de as panificadoras estarem a recorrer a reduzir o tamanho pão.

"Na verdade, se o preço do pão subiu, não deveriam ter alterado o formato do pão", reprova.

A responsável do INADEC afirma que esta prática é registada em todas as províncias, sendo que algumas padarias já foram encerradas, por causa disso e também por outros factores, como falta de higiene e salubridade das instalações.

Explica que foram tomadas medidas nas províncias de Benguela (3), da Lunda Sul e em Luanda. "Isso é constante, tanto que já estávamos a fazer um trabalho de acompanhamento antes mesmo da implementação do IVA", expressa.

"Relativamente às queixas que estamos a receber diariamente sobre subidas absurdas de preços, o INADEC continua a trabalhar. Esta é uma prática recorrente e nós continuamos a trabalhar e alertar que quem estiver a faze-la será sancionado", remata.

Assuntos Angola   Comércio  

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