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22 Março de 2017 | 09h00 - Actualizado em 22 Março de 2017 | 12h03

O metodismo está no coração dos angolanos - Bispo Emílio de Carvalho

Luanda - A Igreja Metodista Unida celebrou, a 18 de Março, 132 anos de existência. A propósito, o bispo reformado, Emílio de Carvalho, concedeu uma entrevista à Angop, na qual, para além de abordar a implantação do metodismo no país, discorre sobre outros assuntos, desde a contribuição da igreja nos mais variados domínios ao despertar das consciências para a luta anticolonial.

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Emílio de Carvalho - Bispo Emérito da Igreja Metodista

Foto: Cortesia Ana Ramos

Eis a conversa na íntegra:

(Por Ana Maria Ramos)

Qual tem sido o contributo da Igreja Metodista Unida ao longo destes anos?
 
Bispo Emílio de Carvalho (BEC): É muito difícil exprimir o que aconteceu na Igreja Metodista Unida em 132 anos. Ela chegou a Angola no dia 18 de Março de 1885, e comemoramos a data no último domingo, em Caxito (Kitongolo).
 
Os primeiros anos foram de aventuras para os primeiros missionários que vieram sem saber para onde iam, tendo-se estabelecido no país em condições difíceis, implantando o metodismo em Luanda, Icolo e Bengo, Dondo, Nhanga Pepe, Malanje e noutras partes de Angola.
 
Angop: Fale um pouco sobre a expansão do metodismo em Angola?
 
BEC: Hoje, se quisermos falar da expansão do metodismo em Angola, diremos que se encontra espalhado em  todo o país como uma comunidade que vem testemunhando a difusão do evangelho geograficamente e no coração das pessoas.
 
Daquele tempo para cá, o Movimento (hoje Igreja Metodista) cresceu ao redor do mundo. A sua doutrina está mais próxima do coração e a sua acção, na certeza da salvação.
 
Angop: Qual foi a influência do metodismo para o despertar das consciências para a luta de libertação do jugo colonial?
 
BEC: A princípio, os missionários talvez não tivessem a  ideia de que a sua pregação e o seu modo de viver e de trabalhar fossem despertar as mentes dos angolanos.
 
O metodismo chegou a Angola no tempo colonial e já sabe o que o colonialismo fez em Angola. Depois, em certa altura, a caravana que tinha vindo acompanhar  apercebeu-se de que os portugueses estavam a atrasar a vida do povo angolano. Então, começaram por surgir mais missionários com atitude, para ajudar na necessidade que tínhamos de nos libertar dos colonizadores. A juventude também esteve envolvida.
 
E assim, a obra missionária que começou separada da luta contra o colonialismo viu-se mais tarde envolvida na luta de libertação.
 
A Igreja Metodista Unida foi o ponto focal desta luta contra o colonialismo português.
 
Angop: Fala-se  muito sobre a tortura, naquela altura, aos líderes da igreja...
 
BEC: Pelo menos 100 pastores, fiéis e leigos destacados das igrejas foram mortos e torturados pelo colonialismo naquela altura. A igreja pagou bem caro a nossa luta de libertação.
 
Angop: Como contribuiu a igreja para a formação dos quadros nos mais variados níveis?
 
BEC: Desde o princípio, o objectivo da igreja não foi apenas a evangelização; a educação sempre esteve na agenda da denominação religiosa, por isso foram abertos os principais centros em Luanda e no Quéssua.
 
Neste sentido, a igreja  desempenhou papel importantíssimo. Os primeiros quadros formados no país, nos diferentes níveis de ensino, pertenciam às igrejas, e podemos orgulhar-nos por ter sido a nossa igreja um dos primeiros baluartes da educação em Angola. Através da educação, os missionários puderam atingir as mentes, despertaram em nós a necessidade que tínhamos no domínio da educação, que, de certa forma, ajudaria a progredir nos estudos, para o futuro alcance dos grandes objectivos do país.
 
Por ter surgido num ambiente universitário, o metodismo compreendeu cedo a importância de se promover a educação como instrumento para a melhoria da qualidade de vida, tanto do indivíduo quanto da sociedade.
 
Angop: Na pacificação dos espíritos, qual foi o contributo da Igreja Metodista Unida?
 
BEC: A igreja tem acompanhado o Governo para a pacificação dos espíritos em Angola, porque a religião pacifica e desperta os espíritos adormecidos para a realidade da vida, induzindo as populações à necessidade da reconciliação nacional, mas também guardando o desejo que temos de nos libertar. Esse é um desejo que  não devemos largar, temos que nos manter firmes para a nossa libertação. 
 
Angop: Temos ainda muitos jovens desesperados?
 
BEC: No que diz respeito à juventude, não sou tão pessimista. Não podemos classificar os jovens através de meia dúzia de exemplos. A juventude tem consciência da sua responsabilidade,  ela  deve jogar o seu papel importante na condução deste país, embora certos jovens ainda não tenham este sentido de responsabilidade.
 
Mais uma vez, faço um apelo aos jovens que tenham consciência do papel que a igreja e a sociedade desempenharam no passado. Para isso, têm que conhecer a nossa história, um passado de colonialismo de opressão que teve fim. Somos agora livres, adquirimos a nossa liberdade. A independência chegou há cerca de 40 anos. Estamos no caminho do desenvolvimento e devemos participar para desenvolver o país.
 
Angop: Que país gostaria de ter no futuro?
 
BEC: Eu gostaria de ter, no futuro,  o mesmo que os outros  têm: um país livre, com progresso nos diferentes domínios educacional e saúde, em todos os campos da perspectiva humana.
 
Todos queremos que Angola marche neste sentido e que triunfe. Este país tem homens de mentes abertas, de grandes capacidades. Com estes quadros brilhantes, podemos marchar vitoriosos, rumo ao desenvolvimento.
 
Angop: Na sua opinião, como classifica a mulher angolana?
 
BEC: A mulher angolana é educada. Grande parte dos nossos quadros educacionais é composta por mulheres, por isso  devemos orgulhar-nos  delas. Elas são nossas irmãs, mães e familiares que estão a superar-se para ajudar a desenvolver o país ao lado dos homens.
 
PERFIL
 
Emílio Júlio Miguel de Carvalho, 84 anos, nasceu a 3 de Agosto de 1933, em Pungo Andongo, província de Malanje. É filho de Júlio João Miguel e de Eva Pedro de Andrade, ambos já falecidos.
 
Preso por dois anos pela polícia portuguesa, PIDE-DGS, por defender a autonomia seria posto em liberdade vigiada, em Abril de 1963, com residência fixa.
 
Exerceu, entre outros, os cargos de presidente geral da juventude da Igreja Metodista em Angola (1950 a 1953) e de professor e reitor do Seminário Emanuel, na Missão do Dondi Angola (1965-1972).
 
Foi o primeiro bispo angolano da Igreja Metodista e reeleito bispo vitalício pela Conferência Central de África.
 
Foi ordenado primeiro Bispo da Igreja Metodista Unida em Angola, em 1972, tendo, posteriormente, com a criação de duas conferências, liderado a conferência do Oeste até à sua reforma, em 2000.
 
Exerceu as funções de chanceler das Universidades de África, presidente do Concílio dos Bispos Metodistas da Conferência Central. Cidadão Honorário da Cidade de Luanda, desde 2002.
 
Possui 12 publicações, das quais se destacam as obras: “Oiço Passos dos Milhares”, “A Igreja no Meio do Temporal”, “A África no Centro da Sua História”, "Heróis Angolanos no Metodismo”, “Levando a Preciosa Semente”.
 
Autor, tradutor e escritor, o bispo reformado Emílio de Carvalho é casado com Marilina Stella de Jesus Figueiredo, há 47 anos e pai de três filhos.
 

Assuntos Sociedade  

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