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05 Fevereiro de 2019 | 14h08 - Actualizado em 05 Fevereiro de 2019 | 13h41

Doenças à espreita nos mercados a céu aberto

Luanda - Frequentados há mais de 20 anos, os mercados a céu aberto ganharam o "rótulo" de principal ponto de venda de produtos a retalho em Luanda, essencialmente os do ramo alimentar. Todos os dias, atraem milhares de clientes, em busca de diversidade e baixos preços.

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Lixo em redor do Mercado da Gajajeira

Foto: Cedida pela Fonte

Lixo no Mercado do Kikolo

Foto: Clemente dos Santos

(Por Francisca Augusto)

Esses espaços fazem parte do roteiro dos habitantes da capital e são a fonte alternativa de renda para milhares de pessoas que, sem emprego, fazem deles a sua única "fonte de pão".

"Oferecem" facilidades de negociação aos clientes, que saem de todos os municípios, com o intuito de encontrarem produtos a preços diferenciados dos supermercados e armazéns.

Os mercados a céu aberto são, para muitos, pontos de frequência obrigatória, sobretudo quando o assunto for poupar recursos e assegurar a gestão rigorosa das finanças familiares.

Entretanto, um aspecto menos visível para compradores e clientes começa a pôr em causa a "eficiência" desses mercados, deixando em alerta os especialistas em saúde pública.

Quem frequenta esses locais, na qualidade de vendedor ou comprador, dificilmente imagina que pode estar a pôr em risco a saúde do corpo. Os mercados a céu aberto transformaram-se, nos últimos tempos, em potenciais fontes de propagação de doenças.

Os seus produtos são mal conservados e vendidos ao público em ambientes bastante poluídos.

Por esses espaços passam, diariamente, milhares de clientes em busca de mobiliários, roupas, calçados, artigos domésticos, produtos do campo, vendidos a grosso ou a retalho (…), além de refeições confeccionadas ao redor de lixo, pó e micróbios.

Esses mercados atraem pessoas de vários extractos sociais. Mas, a maior parte dos seus produtos, sobretudo legumes, hortaliças e frutas, fica exposta à contaminação.

Oferecem grande diversidade de produtos agrícolas. Porém, a falta de condições básicas, como WC, fazem com que alguns deles atentem contra a saúde pública.

É nas áreas de alimentos perecíveis, como carne, peixe e frango, onde surgem os maiores riscos de contaminação ou propagação de doenças, causadas por moscas, ratos e baratas, que geralmente tomam de "assalto" os produtos "sem piedade".

Segundo especialistas, a frequência desses insectos deve ser vista como um sinal de alerta, sobretudo para os consumidores, que podem ter a saúde em risco.

"Os alimentos expostos junto ao lixo podem acarretar várias doenças, como a infecciosa aguda, causada por um vírus que provoca inflamação e necrose do fígado", adverte a  nutricionista Filomena Vieira, que pede a rápida intervenção do Estado.

A venda de produtos em mercados a céu aberto ou informais é uma prática que ganhou consistência no começo dos anos 90, com o surgimento do antigo Roque Santeiro, no Distrito do Sambizanga, tido como um dos maiores de África.

Praticam preços mais atractivos, se comparados aos dos supermercados, mas grande parte deles apresenta problemas de fundo em termos de saneamento básico.

O consumo, nos mercados, de refeições expostas ao lixo e a insectos, é um grande factor de propagação de doenças em Luanda, cidade com mais de sete milhões de habitantes.

Prova disso foi o elevado índice de contaminação de frebre amarela em Luanda, no ano de 2016, que teve como epicentro o Mercado do KM 30.

Autoridades buscam soluções

Para reduzir o impacto desse fenómeno, o Governo provincial e as administrações municipais desenvolvem acções de alerta aos vendedores e responsáveis dos mercados sobre os cuidados higiénicos a ter com os espaços de venda.

Essas acções não surtem o efeito desejado, pelo que continuam, nos mercados, os amontoados de lixo, prejudicando a saúde das vendedoras e dos compradores.

Em época de chuva, os mercados chegam a atingir a imundice, com fezes, urina, água estagnada e lama, criando ambiente propício para o surgimento de ratos, baratas, moscas, mosquitos e larvas.

A sujeira ao redor de muitos mercados a céu aberto de Luanda está na base da propagação de doenças infecciosas, com destaque para a malária, febre tifóide, cólera, diarreias agudas, tuberculose e a febre-amarela.

Esta constatação é da médica em doenças infecciosas Manuela Fernandes, que considera fundamental desenvolver mecanismos para eliminar os amontoados de lixos nos mercados informais, a fim de se reduzir as hipóteses de surgimento de epidemias.

A esse mesmo respeito, o infectologista Marcos Paulo lembra que várias doenças, como diarreias e leptospirose, estão associadas ao lixo.

"A leptospirose é uma doença infecciosa causada pela bactéria leptospira, que é encontrada, principalmente, na urina de ratos. Com a chuva, a pessoa que entrar em contacto com esse lixo corre o risco de contrair a doença, caso tenha um corte na pele, ou por via das mucosas, como a da boca", adverte o especialista.

Vendedoras ignoram apelos

O problema da falta de higiene é uma realidade nos mercados do Catinton, distrito urbano da Maianga, do KM 30, município de Viana, Kikolo, município de Cacuaco, Tunga Ngo, Distrito do Rangel, e em outros de menor expressão, onde se multiplicam os focos de lixo.

Nesses mercados, as vendedoras não olham a meios, quando o assunto for vender e atrair clientes. A palavra de ordem é fazer dinheiro e ganhar o pão de cada dia.

Ermelinda Maguila e Joséfa Afonso confeccionam alimentos no mercado do Catinton. Ao redor das suas panelas de peixe, carne e funge há moscas em abundância.

As cozinheiras pouco se importam com a presença dos insectos. Acreditam que, tendo  feito a comida em alta temperatura, todas as bactérias morrem de imediato.

A cliente Laura Laurindo também acredita nessa tese. Habituada a comer no mercado Catinton, disse à reportagem da Angop que está pouco preocupada com a situação do saneamento básico nos mercados informais. Para ela, o lema é "o que não mata engorda".   

Entretanto, a nutricionista Filomena Vieira alerta para os cuidados a ter com a comida confeccionada nos mercados onde se registam amontoados de lixo.

Sublinha que há maior probabilidade de estarem contaminadas e de gerarem diversos problemas de saúde.

"Deve-se procurar conhecer a origem do alimento, antes de consumi-lo. Observar a higiene do local onde estão a ser servidos, a sua aparência e a forma de confecção", aconselha.

No mercado do KM 30, o cenário de displicência é o mesmo. Há amontoados de lixo, apesar de existir uma equipa de limpeza para o efeito.

O trabalho de limpeza é feito com os poucos meios possíveis, a troco de AKZ 100 por cada vendedor.

Mas, os resultados, estão longe de salvaguardar a saúde dos clientes e compradores.

"O mercado do 30 tem mais de três mil vendedores e mantém-se aberto durante o período de limpeza diária. Para garantir a manutenção, contámos com a parceria da Administração Municipal de Viana, que tem disponibilizado uma operadora para a recolha dos resíduos sólidos", confirma Maria Rogério, secretária da administração do mercado.

A vendedora Joaquina Sabino reconhece o esforço desta equipa na limpeza da praça, mas Feliciana Nzagi, vendedora há 10 anos, discorda da opinião, porque, afirma, ainda há muito lixo e faltam latrinas para o número de comerciantes e clientes.

"Muitas pessoas fazem as necessidades maiores ao relento, junto ao lixo, o que não é saudável para nós e para os clientes", aponta, apelando às autoridades para velarem por isso.

Apesar desse cenário, a cidadã Joana Tomás Simão diz que gosta de fazer compras no mercado do 30, porque os preços são mais acessíveis e ajustados à sua realidade.

Quanto aos alimentos, aconselha as pessoas a lavarem bem os legumes com um pouco de lixívia e a cozerem bem, para evitarem contrair doenças.

O cenário da falta de recolha de lixo, com regularidade, é o mesmo no Mercado do Kikolo. Mas, o que está a preocupar muito as vendedoras, com realce para as de carne, peixe e hortaliças, é a falta de electricidade e água.

Arminda Tiago diz que isso compromete a conserva dos produtos.

De igual modo, a vendedora de hortaliças Belita Soneca conta que lavar e conservar os produtos é um caso sério, porque não há água corrente, nem energia eléctrica.

Quanto ao lixo, diz que é recolhido no período da manhã, mas este trabalho não satisfaz, uma vez que ainda se registam acúmulos no mercado.

A esse respeito, o administrador do mercado do Kikolo, Constantino Pecela, faz saber que a praça tem 7 mil e 200 vendedores e as latrinas existentes não satisfazem a demanda.

"O mercado está numa fase de requalificação e pretende-se aumentar as latrinas, uma vez que nem o maior balneário, chamado TITANIC, é suficiente", refere.

Para permanecerem na praça do Kikolo, os vendedores têm a obrigação de desembolsar 100 a 150 kwanzas cada, taxa estabelecida pela administração do mercado.

Já no Mercado Tunga Ngo, os vendedores e clientes também reclamam da falta de colaboração das autoridades na recolha dos resíduos sólidos, muitos dos quais depositados por moradores das redondezas.

"A situação dura há longos anos e carece de intervenção dos órgãos centrais", lamenta Paulo Joaquim, vendedor há 8 anos no Tunga Ngo.

Dá a conhecer que, quando podem, engajam-se na limpeza do mercado, mas não têm recipientes apropriados para depositar o lixo.  

Os vendedores e clientes dos mercados informais esperam por tomadas de medidas adequadas, para salvaguardarem a questão da saúde pública.

O problema vai exigir maior investimento das autoridades e maior consciência de quem, todos os dias, compra e come nos mercados a céu aberto.

A resolução do problema pode ainda levar algum tempo, mas, apesar das carências, um aspecto deve ser relevado em conta: a saúde está em primeiro lugar.

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