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20 Outubro de 2019 | 13h17 - Actualizado em 21 Outubro de 2019 | 19h48

Chuva devolve esperança no Cunene

Luanda - Renasce a esperança na província do Cunene, onde dias melhores se avizinham, com a chuva a dar os primeiros sinais de retorno, depois de 12 meses de seca severa.

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Carcaça de animal sacrificado ante inanição

Foto: TARCISIO VILELA

Alimento para as vitimas da Seca

Foto: JOSÉ CACHIVA

(Por Moisés da Silva)

Entre sofrimento e alternativas para resistir ao fenómeno, os habitantes das 20 comunas estão a “reinventar-se”, para se evitar mortes humanas directas, enquanto aguardam ansiosos pelo mês de Dezembro, altura do “pico” da chuva na região, segundo previsões do INAMET.

Nesse mês prevêem-se chuvas fortes, com volume de água acima dos 800 milímetros, 200 a mais em relação ao normal (600 milímetros) para a reanimação de um milhão 121 mil e 748 habitantes daquela circunscrição.

Caso se concretize esta previsão, poderá haver transbordo do Rio Cuvelai e inundações na província, que, depois de um ano, registou finalmente chuva moderada (no dia 14) deste mês, com 13.5 milímetros de volume de água, no Cuanhama, Namacunde, Ombadja e Cuvelai.

Neste mês de Outubro, a província completou um ano de seca severa, a mais devastadora dos últimos 25 anos da sua história, estando, por isso, na ausência da agropecuária, a sobreviver de pequenas e intermitentes doações dos governos central, provincial e da sociedade civil.

Como resultado da inoperância da maioria dos furos, da falta de chuva e consequente nulidade da produção agrícola, no geral, nas aldeias recônditas, as pessoas estão a consumir água imprópria, a desenrascar migalhas para comer e a implorar por ajuda.

A inexistência de zonas de pasto em Ondjiva, Namaunde, Curoca, Ombadja e Cahama forçou a conglomeração do gado no Cuvelai, o único dos seis municípios que ainda dispõe de condições para os animais, por ter um clima favorável e registar chuviscos esporádicos.

Mas em antecipação ao agudizar da seca, muitos pastores transumaram (deslocaram) os seus bois para a área do Mulondo, província da Huíla, um dos principais corredores de transumância, onde se encontra um mínimo de 64 mil cabeças.

A gravidade do fenómeno está a obrigar crianças e adolescentes de ambos os sexos a fazer esforços redobrados em escavações profundas, para a descoberta de água e seu acarretamento em recipientes de 20 litros à cabeça, por longas distâncias e muito tempo.

Esta realidade é vista e vivida diariamente, a título de exemplo, nas povoações de Oupiakadi, Oshamola, Hehabo e Onamuka, na comuna do Evale, município do Cuanhama, incitando o crescente abandono escolar e baixo nível de escolaridade em todo o Cunene.

Os sinais desta crise começaram a evidenciar-se em Fevereiro, no quinto mês sem chuva e início do término do pasto, afectando até Abril 857 mil e 443 pessoas e um milhão e 100 bovinos.

Neste período, morreram 26 mil e 267 animais (incluindo caprinos e suínos), numa média de três mil e 283 cabeças de bovinos, e 60 crianças, dos zero aos cinco anos de idade, por má nutrição severa e aguda moderada, de um total de três mil e 978 casos de 436 localidades.

Afectou igualmente o funcionamento de 276 escolas, nove das quais encerraram, prejudicando 54 mil e 500 alunos. Impossibilitou a maturação de mais de 205,3 mil e três hectares de cultivo de cereais, essencialmente o massango e a massambala, como principais alimentos do campo.

Isso comprometeu a campanha agrícola 2018/2019/2020, originando a perda das mais de 80 mil toneladas da produção projectada para a referida época, envolvendo 99 mil famílias camponesas, que aproveitaram apenas 40 por cento da área prevista.

População afligida

Concluído um ciclo de 12 meses de estiagem, os números multiplicaram-se, estando agora assoladas 880 mil e 172 pessoas e mais de um milhão de cabeças de gado, incluindo bovino e caprino (com 30 mil mortes de bovinos).

No domínio da educação estão prejudicadas 413 escolas, dos seis municípios, e pelo menos 900 alunos que desistiram para acompanhar os pais na transumância, comprometendo em 30 por cento o aproveitamento escolar no meio rural.

A estes danos, juntam-se o acentuado êxodo rural e as “mortes indirectas” derivadas do aumento das “doenças hídricas”, com realce para a febre tifóide, a cólera, as hepatites do tipo A e E, malária, dengue, febre-amarela, paratifoide, amebíase, giardíase as diarréias agudas.

Sem outra alternativa, habitantes vandalizaram respiratórios da conduta de água, no troço Xangongo/Ondjiva - cerca de 97 quilómetros -, associados a outros quase 100 de extensões para Anhanga (30 km), Namacunde (40 km), Oihole e Humbe.

Trata-se de um investimentos do Governo, por via do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), de 220 milhões de dólares, para um sistema que funciona desde 2014, com impacto considerado na vida das famílias, sobretudo na cidade de Ondjiva, o mais populoso.

O projecto, com capacidade instalada para 20 mil metros cúbicos, contemplava 37 pequenos sistemas de captação de água, 28 dos quais inoperantes devido a actos de vandalismo, beneficiando 150 mil pessoas directa ou indirectamente, incluindo comunidades rurais.

Enquanto isso, desesperados, criadores e pastores de gado estão a abater animais na iminência de morrer, para produção de carne seca e confecção. Pela mesma razão, estão a vender a cabeça entre 15 mil e 20 mil kwanzas, contra os anteriores AKZ 200 mil.

Deste modo, as famílias camponesas tornaram-se mais pobres e incapazes de conservar alguns hábitos e costumes da cultura Cuanhama, tal como a “realização condigna” de óbitos, Efico (festa da puberdade), casamentos e reuniões tradicionais, que implicam o sacrifício do gado.

A propósito deste assunto, o vice-governador provincial para os Serviços Técnicos e Infra-estruturas, Édio Gentil José, diz estar-se diante de uma situação “difícil”, do ponto de vista da economia familiar, pelo facto de o gado ser “nuclear” para a vida dessas pessoas.

Enquanto, no casco urbano, a importância do gado se resume quase unicamente na produção de carne para o talho, no meio rural, o animal é valioso, sobretudo pela produção de leite, um produto de importância vital para a dieta alimentar das comunidades.

Além disso, o boi é importante para a tracção animal, na agricultura de subsistência, bem como para a produção de adubo biológico. Em síntese, o gado bovino é um símbolo de “honra e de prestígio” para as famílias criadoras rurais.

“O gado nesta região constitui a moeda para cerimónias como festas de Efiko, nascimento de crianças, casamentos e os momentos mais tristes, como óbitos. Portanto, é o banco desta população, e, por isso, existe uma grande resistência cultural em se vender”, afirma Édio José.

Neste momento, acrescentou, há esse desespero porque os dias estão cada vez mais longos para as famílias, e com desafios maiores por estes estarem a assistir mais de 90 por cento do seu património e capital, que é o gado, morto, causando desfalques económicos.

“Enterrar um ente querido no mesmo dia da morte é um aspecto que culturalmente belisca profundamente a dignidade dessas famílias. Quer dizer que um Efiko, sem o abate de uma cabeça, para uma família é desprestigiante, da mesma forma que é o funeral” – argumenta.

Sociedade solidariza-se com vítimas

Respondendo ao grito de socorro da província, milhares de cidadãos criaram sinergias para, com o Executivo, acudir às famílias carenciadas do Cunene, para onde, semanalmente, desde Junho, deslocam-se camiões e viaturas ligeiras com bens de primeira necessidade.

São toneladas de arroz, feijão, milho, óleo vegetal, massa alimentar, água mineral, açúcar, sabão, fardo de roupa, fuba e ração fria (latarias), entre outros produtos, distribuídos de forma equitativa e rotativa por todas as famílias lesadas.

Destas ajudas destacam-se financiamentos do Banco de Fomento Angola (BFA), da União Europeia, através das Nações Unidas e do Japão, para estudos de prospecção em torno da seca, que levou o Presidente da República, João Lourenço, a se deslocar àquela região, em Maio.

Contudo, esses apoios ainda são insignificantes, visto que, em termos de bens alimentares, Cunene precisa de 17 mil toneladas/mês, de doações dos governos central e províncias, do privado, de organizações nacionais e internacionais, igrejas, entre outros.

É com esse espírito que o coordenador residente das Nações Unidas em Angola, Paolo Balladelli, visitou a província e anunciou a disponibilização de alguma contribuição, o que aumenta as expectativas de que a angústia do povo cuanhama se aproxime ao fim.

O vice-governador admite que, se não houvesse essa forte mobilização da sociedade civil, registar-se-iam mortes e outras situações muito complicadas de se gerir, porque as famílias estão muito vulneráveis.

Apela à maior disponibilidade da sociedade civil (incluindo associações juvenis, autoridades tradicionais, entidades singulares anónimas e países da SADC), para permitir criar uma reserva para as vítimas, tendo em vista momentos mais duros e a quadra festiva.

Feliz com as ajudas, a soba da povoação do Chiúlo, município do Ombadja, Albertina Maria da Conceição, agradece o gesto de todos quanto se solidarizaram, sublinhando que o povo está a sofrer porque perdeu o seu maior potencial económico, que é o gado.

Dada a gravidade do problema e a “ajuda dependência” da população, diz que, além de comida, material de higiene e vestuário, os munícipes locais pedem também com maior urgência a abertura de furos de água, distribuição de feno e sal mineral para o gado.

Por seu turno, o administrador do Cuvelai, Germano Nambalo, explica que estes apoios beneficiaram, no município, 50 mil e 201 pessoas afectadas pelo fenómeno, tendo já recebido 65 toneladas de bens diversos, desde que se despoletou a seca no Cunene.

Executivo põe a “mão na massa”

Atento ao agravamento do fenómeno e ciente dos seus deveres junto da sociedade, o Executivo intensificou a implementação do Plano de Emergência de combate à fome e à seca no Cunene, o que permitiu recuperar 107 furos de água, de 171 visados em toda a província.

De igual modo, adquiriu 30 camiões, dos quais 26 cisternas e quatro de carga sólida, 20 tractores, bem como 450 reservatórios de dez e cinco metros cúbicos, distribuídos pelas 20 comunas dos seis municípios.

Sob supervisão do Presidente da República, João Lourenço, que adjudicou 3.9 mil milhões de kwanzas para a primeira fase desse programa, o Governo do Cunene propõe-se também desassorear 54 das 190 chimpacas para o abeberamento do gado, sobretudo.

A par destes projectos, o Chefe de Estado angolano aprovou (este mês), por via de um despacho, os contratos resultantes do Concurso Público, para a construção de barragens, sistemas de captação de água e canais adutores, no âmbito das acções estruturantes.

Com início previsto para este mês de Outubro e término em 2022, a empreitada abarca seis lotes, atribuídos às construtoras Sinohydro Angola, a China Road Bridge Corporation e a GHCB e ao consórcio Omatapalo-Engenharia e Construção SA e a Mota-Engil Angola SA.

Nos termos destes acordos, a Sinohydro Angola deverá construir dois canais adutores, um de Cuamato até Dombendola e outro de Cuamato até Namacunde, 20 chimpacas e uma barragem em Ndúe, onde a GHCB vai colocar um canal adutor até Embundo e 15 chimpacas.

O consórcio Omatapalo/Mota-Engil vai erguer uma barragem em Calucuve, no município do Cuvelai, ao passo que à China Road Bridge Corporation compete a construção do canal adutor associado a esta barragem, a partir da comuna da Mupa até Ondjiva.

De acordo com a memória descritiva, a barragem do Calucuve terá 19 metros de altura, mil e 829 metros de cumprimentos e 100 de largura nas secções superior e inferior, e capacidade de armazenamento de 100 milhões de metros cúbicos de água, a partir da Bacia do Cuvelai.

Já o seu canal adutor, revestido de betão para a adução de água, por gravidade, a partir do curso natural do Rio Cuvelai, possuirá 111 quilómetros e beneficiará cerca de 81 mil pessoas, 182 mil cabeças de gado e uma área irrigável estimada de 2.600 hectares/ano.

Por seu turno, a barragem do Ndúe, a ser construída no município do Cuanhama, contará com 26 metros de altura, mil 288 metros de cumprimento e um volume de armazenamento de 145 milhões de metros cúbicos de água, a montante do Rio Cuando.

Envolverá 15 chimpacas e, igualmente, canal adutor associado (de 75 quilómetros), beneficiando directamente as localidades de Luapua, Londe e Embundo, num total de 55 mil pessoas, 600 mil cabeças de gado e, por ano, um campo agrícola de nove mil e 200 hectares.

Esse programa estruturante define também, para essa província do sul de Angola, um transvaze (sistema de transferência de água) do Rio Cunene, bombagem, conduta pressurizada, canal aberto desde a localidade de Cafu ao Cuamato e mais dez chimpacas.

De acordo com a Presidência da República, para a materialização desses projectos estão disponíveis pelo menos 204 mil milhões de kwanzas, a serem assegurados pelo Ministério das Finanças.

Salvação do gado

Por constituir a principal riqueza da província, e fonte basilar de alimentação dos habitantes, o Governo está a distribuir sal mineral e feno para evitar a morte massiva do gado, cujo efectivo bovino é de um milhão e cem mil cabeças (1.100.000.00), e consequente suicídio dos donos.

De acordo com a vice-governadora do sector Político, Social e Económico do Cunene, Soraya Mateus Kalongela, estes produtos estão a ser colocados nas zonas de transumância, para a nutrição do gado debilitado, por falta de vitamina, e não propriamente de pasto.

“As zonas de pasto não suprem todas as necessidades minerais dos animais. É importante fazer-se a suplementação de forma correcta, pois a mineralização do rebanho garante uma boa produção de carne e leite e evita queda de produtividade”, observa.

Para prevenir doenças como carbúnculo hemático, dermatite nodular e pneumonia contagiosa, foram vacinados, de 01 de Agosto a Setembro, 80 mil cabeças de gado nos corredores de transumância dos 78 mil 342 quilómetros quadrados da província.

Kapunda, Kamumbanga, Cafima, Cubate, Mupa, Chivemba, Canganda, Mucupe, Sopia e Chipa são o actual refúgio do gado, a nível do Cunene, que, matematicamente, perdeu (em estimativa) quatro mil milhões e 500 kwanzas com a morte das 30 mil cabeças.

Para acautelar o pior, o Ministério da Agricultura e Florestas preparou, exclusivamente para esta região sul do país, trezentos milhões de kwanzas para fazer, numa primeira fase, a aquisição de duas mil cabeças de gado (o mais fragilizado) para a engorda.

Em princípio, serão compradas duas mil cabeças, o que para o vice-governador Édio Gentil José é um número muito reduzido, pelo que apela para um plano mais ambicioso e soluções sustentáveis, tendo em conta a quantidade de gado que morre diariamente.

O soba José Luís Kavetuole, da povoação da Uia, município da Cahama, reconhece os esforços do Executivo em salvar o gado local, informando que, para se evitar prejuízos maiores, muitos criadores estão a levar os animais para a Chibia, na província da Huíla.

“Outros pastores têm percorrido longas distâncias (mais de 200 quilómetros) em direcção ao Chongorói (Benguela) e Bibala (Namibe), provocando o desgaste físico destes e do próprio gado”, disse, referindo que pela situação actual muitos criadores estão a adoecer.

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